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Artigo Síndrome de Burnout

Síndrome de Burnout em Tempos de Pandemia

O esgotamento é uma síndrome conceituada como resultado do estresse crônico no local de trabalho

25/05/2020 08h21
Por: Silvia Sampaio Fonte: Texto: Silvia Sampaio
Foto:reprodução
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Inicialmente convém entender sobre o que vem a ser a Síndrome de Burnout. A Organização Mundial de Saúde a detalhou na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), publicada no dia 28 de maio de 2019[1].

Esclarece-se que a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) consiste em uma ferramenta que serve para registrar, relatar e agrupar condições e fatores que influenciam a saúde. Ela contém categorias para doenças, condições relacionadas à saúde e causas externas de doença ou morte[2]. 

Segundo o referido documento, Burnout consiste:

O esgotamento é uma síndrome conceituada como resultado do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizada por três dimensões: 1) sentimentos de esgotamento ou exaustão de energia; 2) aumento da distância mental do trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho; e 3) eficácia profissional reduzida. O esgotamento refere-se especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicado para descrever experiências em outras áreas da vida.[3]

Para a ONU Brasil[4], a síndrome não é classificada como doença ou uma condição de saúde, mas um fenômeno ocupacional, de acordo com a OMS.

Para Varella[5], a Síndrome de Burnout pode ser conceituada como um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes.

Continua o autor, esclarecendo que sua principal característica é o estado de tensão emocional e estresse crônicos provocado por condições de trabalho físicas, emocionais e psicológicas desgastantes. Ela se manifesta especialmente em pessoas cuja profissão exige envolvimento interpessoal direto e intenso.

Informa ainda que, profissionais das áreas de saúde, assistência social, educação, recursos humanos, agentes penitenciários, bombeiros, policiais e mulheres que enfrentam dupla jornada correm risco maior de desenvolver o transtorno.

Desta forma, sabe-se que se está à frente de uma pandemia causada pelo surto mundial da doença ocasionada pelo novo Coronavírus SARS-CoV-2, denominada como COVID-19.

Conforme orientações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA[6], a transmissão do vírus ocorre por contato próximo e sem proteção com secreções e gotículas de um indivíduo infectado. Os sintomas podem variar, a maioria dos casos ocorre com sintomatologia leve, como a de um resfriado. Os sintomas mais comuns são tosse, febre, coriza, dor de garganta e dispneia. Porém, casos mais graves evoluem para síndrome de desconforto respiratório e possuem necessidade de cuidados em unidades de terapia intensiva.

O vírus assusta, visto que em 24 de maio de 2020, apresenta uma taxa de letalidade de 6,2%, apesar das inúmeras tentativas dos diversos Governos Estaduais e Municipais, que mantem diversas campanhas preventivas para tentar minimizar os impactos da sua propagação, tais como: decretação de estado de calamidade pública, suspensão de serviços e comercio, controle de divisas, fiscalização, medidas de isolamento social, entre outras, já são 363.211 casos confirmados, com 22.666 óbitos, segundo dados do Ministério da Saúde[7].

Mediante esse quadro, diversos profissionais encontram-se diretamente mais afetados, entre eles, os que trabalham nas atividades essenciais, assim entendidas aquelas dispostas no artigo 10, da Lei n.º 7.783/89, quais sejam:

I - tratamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis;

II - assistência médica e hospitalar;

III - distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos;

IV - funerários;

V - transporte coletivo;

VI - captação e tratamento de esgoto e lixo;

VII - telecomunicações;

VIII - guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e materiais nucleares;

IX - processamento de dados ligados a serviços essenciais;

X - controle de tráfego aéreo e navegação aérea; 

XI compensação bancária.

XII - atividades médico-periciais relacionadas com o regime geral de previdência social e a assistência social;            

XIII - atividades médico-periciais relacionadas com a caracterização do impedimento físico, mental, intelectual ou sensorial da pessoa com deficiência, por meio da integração de equipes multiprofissionais e interdisciplinares, para fins de reconhecimento de direitos previstos em lei, em especial na Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência); e             

XIV - outras prestações médico-periciais da carreira de Perito Médico Federal indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.    

XV - atividades portuárias[8].

 

Assim, todas essas incertezas relacionadas ao Covid-19, aliadas pela facilidade de proliferação do vírus, taxa de letalidade, rápido aumento da curva de infecção e, consequente número de óbitos, somadas as questões sociais, econômicas e financeiras, vez que, em virtude da necessidade de contenção do vírus e das medidas trabalhistas do combate à pandemia, adotadas pelo Governo Federal, além da demora em sua efetividade, vem provocando mais angustias à população como um todo, sendo que determinadas categorias de trabalhadores vem sofrendo mais com a pandemia.

Entre elas, cita-se a dos profissionais de saúde, onde, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem – COFEN, em 07 de maio de 2020, o número de profissionais de enfermagem mortos pela Covid-19 no Brasil chegou a 98, sendo que: 25 são enfermeiros, 56 técnicos e 17 auxiliares de enfermagem. Desses, 67% são mulheres. O número de casos já é maior do que nos Estados Unidos, país mais atingido pela pandemia do novo coronavírus. Lá, se contabiliza 91 mortes, de acordo com levantamento do NNU (National Nurses United)[9].

Em recente trabalho apresentado por Rodrigues e Silva[10] (2020), as pesquisadoras apontaram que a ausência de vacina contra o novo Coronavírus reforça entre os profissionais da saúde a necessidade de aplicação de diversas medidas de prevenção contra a infecção, tais como:

o uso dos óculos de proteção ou protetor facial, avental, luva de procedimento, máscara cirúrgica/N95 e higienização das mãos na prestação de assistência aos casos suspeitos ou confirmados de infecção pelo vírus. Aliado a isso, a pandemia traz um desafio extra para a saúde mental de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Sob maior pressão, estes profissionais tendem a descuidar da própria saúde mental na incansável e constante luta contra o COVID-19, podendo propiciar o surgimento de transtornos relacionados ao estresse e ansiedade.

Continua ainda, no relato de experiencia, citando:

Aliado a isso temos a insegurança vivenciada pelas constantes mudanças de fluxos de atendimento e protocolos institucionais, o que dificulta a rotina de trabalho. Travamos uma batalha contra um agente invisível que nos ameaça e nos mantém refém. Essa situação extrema trazida pelo Coronavírus causa muita pressão psicológica, o que acaba ocasionando ou agravando problemas mentais para os profissionais que estão na linha de frente deste hospital. A Organização Mundial da Saúde (OMS), recentemente, publicou um guia para orientar cuidados a saúde mental de diversos grupos, incluindo profissionais de saúde. Para os trabalhadores da saúde, o estresse e a pressão de lidar com o seu trabalho, acrescido do risco de adoecer, provocam severos problemas de saúde mental, aumentando o turnouver e a síndrome de Burnout. Grifo nosso

Outra categoria que, novamente, se encontra na linha de frente em relação a estar possivelmente propensa a adoecer, nesse período de pandemia, em relação a sua atividade laboral, são os professores.

Importante esclarecer que a profissão docente é considerada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), como uma das mais estressantes, com forte incidência de elementos que conduzem à Síndrome de Burnout. E, segundo Carlotto[11] (2011), esse fenômeno, que atinge professores de diferentes países, parece portar um caráter epidêmico mundial que extrapola as fronteiras nacionais.

Tal fato deve-se a que, tão logo, foi decretado o estado de calamidade pública, através do Decreto Legislativo n.º 06/2020[12], as Instituições de Ensino tiveram que se adequar, praticamente da noite para o dia, em relação as aulas remotas, ou seja, ministradas nos dias e horários previamente agendados quando das aulas presenciais, cumprindo assim orientações das Portarias do MEC nº 343/2020, nº 345/2020 e nº 395/2020[13], que indicaram a substituição das aulas presenciais por aulas que utilizem meios e tecnologias de informação e comunicação, assim entendidas como aulas remotas ou, alternativamente, sua suspensão.

E, a partir daí, tiveram que se reinventar nas suas atividades acadêmicas, inicialmente, transformando todo o seu material, planejado com antecedência, para o período letivo em curso, 2020/1 e 2, em aulas virtuais. Igualmente, para alguns professores ainda, a adequação dos sistemas virtuais, com plataformas para alguns, até então, desconhecidas, tais como: Zoom, Skype, Google hangout meets, Google forms, Microsoft teams etc.

A pandemia trouxe muitas mudanças nas relações laborais, entre as quais, cita-se: o medo do contágio com o vírus, isolamento social, sobrecarga de trabalho, cobranças excessivas, conflito trabalho e família, ausência de suporte do empregador no uso dos equipamentos de proteção individual ou de adequação à nova realidade das atividades laborais, entre outros que ainda poderão ser apresentados.

Importante esclarecer que ,foram citadas apenas algumas categorias profissionais, muitas mais podem se encontrar nessa situação de vulnerabilidade, podendo vir a adoecer por conta do estresse emocional psicológico, mental e físico, ocasionado pelas mudanças ocorridas em suas vidas e na de suas famílias. Todas essas situações relacionais apresentadas em relação as atividades laborativas que estão sendo impactadas pela pandemia do coronavirus.

Torna-se assim, necessário aos empregadores, sejam Instituições públicas ou privadas, adequarem-se as suas obrigações laborais, no sentido de cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina no trabalho, visando evitar o surgimento de possíveis adoecimentos, entre eles, a Síndrome de Burnout, por conta das atividades laborais.



[1] OPAS. Organização Pan Americana de Saúde. Organização Mundial de Saúde. Disponível em: <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5949:cid-burnout-e-um-fenomeno-ocupacional&Itemid=875>. Acesso em 24 mai 2020.

[2] ICD-11. International Classification of Diseases for Mortality and Morbidity Statistics. Disponível em: https://icd.who.int/icd11refguide/en/index.html#1.1.0Part1purposeandmultipleusesofICD|part-1-an-introduction-to-icd11|c1>. Acesso em 24 mai 2020.

[3] ICD-11. International Classification of Diseases for Mortality and Morbidity Statistics. Disponível em: <https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http://id.who.int/icd/entity/129180281>. Acesso em 24 mai 2020.

[4] BRASIL. Nações Unidas. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/sindrome-de-burnout-e-detalhada-em-classificacao-internacional-da-oms/>. Acesso em 24 mai 2020.

[5] Disponível em:<https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/sindrome-de-burnout-esgotamento-profissional/>. Acesso em 24 mai 2020.

[6] ANVISA. Disponível em:<http://portal.anvisa.gov.br/coronavirus>. Acesso em 24 mai 2020.

[7] Ministério da Saúde. Disponível em: < https://covid.saude.gov.br/>. Acesso em 24 mai 2020.

[8] BRASIL. Lei n.º 7.783/89. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7783.HTM>. Acesso em 24 mai 2020.

[9] Conselho Federal de Enfermagem – COFEN. Disponível em:<http://www.cofen.gov.br/brasil-ultrapassa-eua-em-mortes-de-profissionais-de-enfermagem-por-covid-19_79624.html>. Acesso em: 24 mai 2020.

[10] RODRIGUES NH, SILVA LGA. Gestão da pandemia Coronavírus em um hospital: relato de experiência profissional. J. nurs. health. 2020;10(n.esp.):e20104004. Disponível em: <https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/enfermagem/article/view/18530/11238>. Acesso em 24 mai 2020.

[11] CARLOTTO, Mary Sandra. Síndrome de Burnout em professores: prevalência e fatores associados. Psic.: Teor. e Pesq. vol.27 no.4 Brasília Dec. 2011. ISSN 0102-3772. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722011000400003&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em 24 mai 2020.

[12] BRASIL. Decreto Legislativo n.º 06/2020. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/portaria/DLG6-2020.htm>. Acesso em 24 mai 2020.

[13] Ministério da Educação (MEC). Portarias n.º 343, 345 e 395/2020. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=88631>. Acesso em 24 mai 2020.

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