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Esperança Garcia, mulher, negra e advogada

Artigo de capa da Revista Advogados

10/09/2019 16h14Atualizado há 2 semanas
Por: David Pacheco
Fonte: Redação
Dra. Andreia Marreiro
Dra. Andreia Marreiro

Mulher, negra e escravizada: Esperança Garcia foi a primeira advogada piauiense e protagonizou uma narrativa que chega a nós através de uma carta identificada pelo historiador e antropólogo Luiz Mott e, entregue ao governador da Capitania de São José do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro em 1770.

A carta denunciava maus-tratos sofridos por uma mulher negra de 19 anos, que foi levada à força da Fazenda Algodões, perto de Floriano, para uma fazenda em Nazaré do Piauí.  Uma carta que demandava justiça. Um tipo de texto que, no dicionário da boa advocacia, poderia ser sinônimo de petição. Abaixo a carta de Esperança: 

“Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.

De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia”.

Com a falta de resposta do governador, Esperança Garcia fugiu da fazenda e oito anos depois seu nome foi mencionado em uma relação de trabalhadores de Algodões. A remetente da referida carta, recebeu, 247 anos depois, do Conselho Estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PI) o título simbólico de primeira mulher advogada do Piauí, a pedido da Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB-PI.

"Em 2016, fomos convidados para compor a Comissão da Verdade da Escravidão Negra, presidida pela Dra. Sueli , onde houve a importante participação de historiadores, onde foi dado início a pesquisa sobre a vida desta importante mulher. Através de estudos, identificamos que essa mulher provavelmente tenha sido alfabetizada pelos jesuítas. Por se tratar de documento de 1770, ela é reconhecida como a primeira advogada piauiense. Numa sociedade estruturada pelo racismo e machismo, isto é algo surpreendente", contou a advogada Andreia Marreiro Barbosa, enfatizando que a história de Esperança Garcia é inspiração para transpor.

Para Andreia Marreiros, mestra em Direitos Humanos e Cidadania pela UnB e coordenadora da Pós-Graduação em Direitos Humanos "Esperança Garcia" (FAR), a coragem de Esperança Garcia reforça o desejo de continuar lutando por direitos, por liberdade, por igualdade. "A Esperança Garcia é motivação para nós advogados. Ela estava sentindo todas aquelas violações e maus-tratos que feriam a dignidade dela e de suas companheiras, uniu essa sensibilidade com a inteligência, e fez uso das ferramentas do colonizador para agir de forma coletiva", completou Andreia. 

 

 

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