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Artigo ELEIÇÕES 2020

QAnon E ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS

Ameaça à democracia?

23/10/2020 07h10
Por: Nayara Negreiros
foto: Layane
foto: Layane

 Nessa era tecnológica e sociedade da informação, um grupo tem se destacado nas mídias mundiais, chamado “QAnon”. Mas o que significa e qual a relação com a democracia norte americana?

Pois bem, tentando-se traduzir a sigla QAnon, de acordo com o blog Diário das Nações, ter-se-ia a letra “Q” para designar o nível mais alto de acesso a informações secretas do Departamento de Energia dos EUA (departamento que mantém o controle da política de energia e da segurança nuclear do país), e o suposto indivíduo Q, que se autointitula um oficial da inteligência; e “Anon”, acrônimo de “anônimo” em inglês.

O grupo teria como escopo, o lema “Where we go one, we go all” (#WWG1WGA), o que traduzindo significaria “Onde vamos um, vamos todos”, e surgiu com o Pizzagate, uma teoria da conspiração difundida durante as eleições presidenciais dos EUA em 2016, fincado no centro da extrema-direita americana.

Entretanto, o grupo vem conquistando a atenção e o desafeto do Federal Bureau Investigation – FBI, sendo considerado uma ameaça interna para os EUA.

Para muitos, o QAnon poderia ser traduzido como uma teoria da conspiração, uma distopia, refletindo os anseios de uma sociedade inquieta e psicologicamente devastada.

Protegido pelo anonimato, as publicações do grupo começaram em plataformas que não exigem exposição dos autores, como a 4 chan e 8chan.

Com pleno acesso às mídias sociais, o grupo vem difundindo ideias e correntes de ódio, como, por exemplo, de que o mundo é controlado por uma elite satânica e pedófila, que fomenta a proliferação do tráfico sexual infantil, havendo reforço entre a sociedade para a normalização da pedofilia como forma de obter uma droga rejuvenescedora, levantando nomes como a de Hillary Clinton, George Soros, Barack Obama, Angela Merkel e até mesmo, repercutindo em outros países, como no Brasil, trazendo os nomes de Xuxa, Luciano Hulk, Felipe Neto e outros.

Defendem, ainda, a existência de um “Deep State”, ou estado profundo, que estaria ameaçando o governo de seu intitulado Messias, Donald Trump, “salvador do mundo”.

Filiam-se às correntes negacionistas, tais como inexistências de aquecimento global, terraplanismo, movimentos antivacina, considerando como falsas todas as informações veiculadas nas mídias de massas.

Entretanto, o que se observa é a ampla utilização das famosas “fake News” para fortalecer o movimento, tais como notícias envolvendo o nome do Papa Francisco, a apresentadora Oprah Winfrey e até o ator Tom Hanks.

Mas o que é mais impressionante é o crescente número de seguidores e apoiadores desse movimento, o que pode ser observado pelas inúmeras manifestações públicas no Reino Unido, EUA e até na Alemanha.

Há quem defenda a corrente de que esse movimento, além de ser de extrema-direita, compactua com pensamentos neonazista, defendendo, inclusive, a existência de um Império Alemão e a volta do “reich”.

Já na América Latina, observa-se grupos e páginas em países como Brasil, Argentina e Costa Rica.

O que alguns membros explicam é que os pilares, como ciência, a economia, a política e religião estão obsoletos e que o QAnon vem despertar as pessoas para uma nova visão, uma nova vida, fazendo-os questionar sobre tudo que já foi ensinado.

Não obstante, buscam incessantemente as chamadas “Q drops”, que seriam mensagens codificadas pelo Presidente, por exemplo, quando Trump, em discurso na Flórida, repetiu quatro vezes o número 17, sendo a letra “Q” a décima sétima do alfabeto.

Entretanto, em 2019, o FBI classificou o QAnon como ameaça doméstica de terror, afirmando que as mensagens do grupo podem emergir, espalhar-se e até incitar atos violentos.

Em 2016, o Pizzagate, teoria veiculada nos porões da internet, fez com que o cidadão americano Edgar Welch fosse à pizzaria Comet Ping Pong, em Washington, com três armas, para investigar por conta própria, a teoria dissipada: a pizzaria seria uma rede de exploração sexual infantil sustentada por membros do Partido Democrata, em especial Hillary Clinton, à época candidata a presidente dos EUA.

Em 2020 e a menos de trinta dias para as eleições presidenciais americanas, o QAnon se mostra peça chave para a reeleição de Donaldo Trump, seu eleito como Messias, mesmo o presidente quase nunca se pronunciar sobre o movimento, defendendo apenas o patriotismo do grupo.

O que se tem, a bem da verdade, é o adoecimento da democracia, perfazendo um cenário de grandes desconfianças das instituições, enfraquecendo os pilares democráticos.

Calçando-se na célebre frase de Thomas Hobbes, de 1651, “a esperança constante chama-se confiança... O desespero constante chama-se desconfiança", vê-se que os cidadãos clamam por mais inclusão, participação e desenvolvimento dentro do cenário político, o que se percebe nas palavras de Warren, Sztompka e Petit, que a  desconfiança expressa atitude de descrédito ou desmerecimento de alguém ou de algo, embora, na democracia, alguma dose de desconfiança em instituições possa ser sinal sadio de distanciamento dos cidadãos de uma esfera da vida social sobre a qual têm pouco controle, mas a desconfiança em excesso e, sobretudo, com continuidade no tempo, pode significar que, tendo em conta as suas orientações normativas, expectativas e experiências, os cidadãos percebem as instituições como algo diferente, senão oposto, àquilo para o qual existem: neste caso, a indiferença ou a ineficiência institucional diante de demandas sociais, corrupção, fraude ou desrespeito de direitos de cidadania geram suspeição, descrédito e desesperança, comprometendo a aquiescência, a obediência e a submissão dos cidadãos à lei e às estruturas que regulam a vida social, como asseveram Dalton e Miller.

E não há falar em confiança sem citar a questão da legitimidade política. A sociologia política de Max Weber vem distinguir o poder e a autoridade. Nas palavras de José Álvaro Moisés, explicando Weber, enquanto no caso da autoridade a relação dos cidadãos – assim como do pessoal burocrático e administrativo do Estado – com governantes e autoridades públicas seria motivada por aquiescência voluntária, isto é, por adesão de natureza não-coercitiva, no caso do poder a relação envolveria, em seu limite, o uso da força, embora regulado por lei.

A grande questão seria: qual o motivo da anuência dos cidadãos às autoridades públicas e às instituições políticas? Weber responde, apresentando uma solução tripartite da legitimidade: o primeiro tipo refere-se à aceitação da autoridade motivada pelo respeito à tradição, embora as sociedades que se modernizaram ou estão em vias de concluir esse processo não possam ser incluídas aí; o segundo tipo alude às qualidades carismáticas atribuídas a certas lideranças políticas ou a certas ideias expressas por elas mas, claramente, isso constitui um caso especial; quanto ao terceiro tipo, a aquiescência depende de sua ordenação racional-legal, ou seja, os cidadãos conformam-se e manifestam respeito a autoridades e a instituições constituídas e definidas por regras legais e racionais.

Ademais, observa-se nesta última corrente, que o fenômeno de confiança em instituições repousa nas próprias instituições e não na confiança interpessoal, pois num sentido ético-político, as instituições têm raízes no contexto social que lhes dá origem – do qual fazem parte as orientações intersubjetivas dos cidadãos.

As instituições operam, portanto, como afirma Moisés, como marcos de previsibilidade da ação de governos e de seus responsáveis a partir de regras que organizam o seu desempenho e permitem que sua ação seja controlada socialmente através de normas de imparcialidade e de correção de desvios.

Como bem aduz Levi e Norris, a submissão e a adesão dos cidadãos às instituições são correspondidas pelo funcionamento eficiente e adequado de governos, quaisquer que sejam suas orientações. Mas o contrário acontece se governos, autoridades e instituições tratam a confiança depositada neles pelos cidadãos – através de sua participação em eleições e da aceitação de decisões que os afetam – sem a devida reciprocidade.

Por fim, como assinala Moisés, uma vez sendo capazes de sinalizar, de modo claro, o universalismo, a imparcialidade, a justeza e a probidade de seus procedimentos, as instituições assegurariam que os diferentes interesses em jogo fossem levados em conta pelo sistema político.

Com isso, o QAnon vem, forçosamente, colocar em xeque o atual papel das instituições, consubstanciando-se na desconfiança já instalada, escancarando um câncer no seio social: uma população doente e irresignada. Sorrateiramente, vem como um parasita, alimentando-se das aflições humanas para ganhar força em seu movimento.

 

“Onde vamos um, vamos todos”, será?

 

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