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Artigo LITERATURA

POESIA X PODER

a relação entre literatura e Estado no contexto internacional do trovadorismo

26/02/2021 07h01
Por: Nayara Negreiros
Foto: Layanne Oliveira/ Jornal do Advogado
Foto: Layanne Oliveira/ Jornal do Advogado

Há de se imaginar que, um dia, o confronto entre o poder régio e a nobreza já fora objeto de poesias trovadorescas portuguesas?  Pois bem, Paio Gomes Charinho, um trovador português do século XIII escancarava uma das tensões mais relevantes na sociedade ocidental-ibérica da época: a total ausência de isonomia desprendida pelo Estado no tratamento dos cidadãos.

Paio, com sua criatividade, compara o monarca ao “mar”, às vezes hostil, “por toda a parte é temido, e que não se sabe quem não o tema”, às vezes abundante, “cabem tantos quanto ele quer”, a bem da verdade é que, no entender do poeta, seria um mar necessário, sem o qual é impossível viver. Mar ambíguo e ambivalente, que por vezes se mostra de grande mansedume, e que para alguns nunca será “bravo nem sanhudo”; mas que em outras ocasiões mostra todo o seu desdém e, quiçá, aos seus excluídos e imprudentes, “con gran tormenta os fará morrer”, como cita José D’Assunção Barros.

É cediço que a poesia trovadoresca tem seu berço nas mediações de Portugal e Castela, sendo em Portugal, os reinados de Dom Afonso III (1248-1279) e de Dom Dinis (1279-1325) anunciavam o movimento de centralização que se solidificaria com a Dinastia de Avis; já em Castela, semelhante acontecimento no reinado de Afonso X de Castela (1254-1284).

Era possível observar, já nessa época, forte tendência separatista entre dois grupos: os que apoiavam o movimento trovador e, aqueles que, em uma contratendência senhorial, defendiam a conservação dos privilégios do reinado.

Nasce, portanto, o que se pode chamar de galego-portugueses, trovadores que adotavam a língua galego-portuguesa onde quer que estivessem. E ganhavam palco entre cantigas de amor e as sarcásticas cantigas satíricas, criticando, inclusive o rei.

A figura do monarca, nascido no seio da nobreza e que, indiscriminadamente se intitula “pai” desta mesma nobreza, torna-se alvo dos poetas. Nas palavras de Barros, “alvejando-se a ‘figura de poder’, alveja-se o próprio poder”. Assim, o trovador é, antes de tudo, a garganta do grito de resistência contra o implacável oceano de poder monárquico, cantando o não-dito subversivamente nos versos e rimas.

Impossível olvidar, portanto, o trovador fidalgo Gil Peres Conde, vindo da alta nobreza, mas exilado na corte do rei de Castela, não poupou críticas ao seu novo suserano. É possível observar em seus escárnios um embate entre dois campos de ideias: a mentalidade feudal e a centralizadora. A seguir, o fidalgo acusa o rei de “mau pagador”:

  

Os vossos meus maravedis, senhor,

que eu non ôuvi, que servi melhor

ou tan ben come outr’a que os dan,

ei-os d’aver enquant’eu vivo for,

ou a mia mort’, ou quando mi os daran?

A vossa mia soldada, senhor Rei,

que eu servi e serv’e servirei,

com’outro quen quer a que dan ben,

ei-a d’aver enquant’ a viver ei,

ou a mia mort’, ou que mi faran en?

Os vossos meus dinheiros, senhor, non

pud’eu aver, pero servidos son,

Come outros, que os an de servir,

ei-os d’aver mentr’eu viver, ou ponmi-

os a mia mort’ o a que os vou pedir?

Ca passou temp’ e trastempados son,

ouve an’e dia e quero-m’ en partir.

(Gil Pérez Conde, CBN 1524)

 

De quantas cousas eno mundo son

non vej’ eu ben qual poden semelhar

al rei de Castela e de Leon

se [non] ua qual vos direi: o mar!

O mar semelha muit’ aqueste rei;

e d’aqui en deante vos direi

en quaes cousas, segundo razon:

O mar dá muit’, e creede que non

se pod’ o mundo sen el governar,

e pode muit’, e á tal coraçon

que o non pode ren apoderar.

Des i ar é temudo, que non sei

quen-no non tema; e contar-vos-ei

ainda mais, e julga [de]-m’enton.

Eno mar cabe quant’ i quer caber;

e manten muitos; e outros á

que x’ar quebrante e que faz morrer

enxerdados; e outros á que dá

grandes erdades e muit’outro ben.

E tod’esto que vos conto aven

al rei, se o souberdes conhocer.

[E] da mansedume vos quero dizer

do mar: non á cont’, e nunca será

bravo nen sanhudo, se lh’o fazer

outro non fezer; e sofrer-vos-a

todalas cousas; mais, s’é en desden,

ou por ventura algun louco ten,

con gran tormenta o fará morrer.

Estas manhas, segundo meu sen,

que o mar á, á el rei. E por en

se semelham, quen-no ben entender

(Paio Gomes Charinho, CA 256, século XIII)

No Brasil, o trovadorismo repercutiu com o surgimento da literatura de cordel. Com os avanços tecnológicos que permitiram a impressão em papéis, possibilitou-se a grande distribuição de textos, que, até então, eram apenas cantados.

Essas pequenas impressões de poemas rimados que eram apresentadas penduradas em cordas – ou cordéis, como é chamado em Portugal – chegaram ao Nordeste brasileiro junto com os colonizadores portugueses, dando origem a essa espécie literária, muito famosa em Pernambuco, Ceará, Paraíba, Bahia e Rio Grande do Norte.

Apesar de não se ter muito conhecimento, o Cordel no Brasil também fez seu dever de casa e se dedicou, em parte a tecer críticas sociais e políticas, como lembra Nando Poeta e Leandro, o pai do Cordel, em A Seca do Ceará:

 

O governo federal

Querendo remir o Norte

Porém cresceu o imposto

Foi mesmo que dar-lhe a morte.

Um mete o facão e rola-o

O Estado aqui esfola-o

Vai tudo dessa maneira

O município acha os troços

Ajunta o resto dos ossos

Manda vendê-los na feira.

 

A Palavra “Mensalão” escrito em 2005 por Vicente Campos Filho; Salário mínimo é do povo o máximo é do deputado, escrito e ilustrado por Vicente Campos Filho em 2006; e Esculhambação no Inferno nesta última eleição, escrito por João Bosco Dias em 2007, são alguns exemplos do que se pode encontrar em solo tupiniquim.

E é claro, Patativa do Assaré, clássico poeta popular do Brasil, chamado por alguns de “Homero sertanejo” (em comparação ao poeta rapsodo grego), escreveu alguns poucos cordéis dos quais um deles se chama: Glosas Contra o Comunismo, sendo intencional, para mostrar a realidade do homem sertanejo.

Mas nem só de críticas vive a poesia cordelista. Vale lembrar de Zé Antônio e o seu “Manifesto Comunista comentado em Cordel”, assim como várias outras obras filosóficas que também foram “traduzidas” para a literatura de cordel.

No mundo das leis, o Direito caiu nas graças da poesia, destacando-se a nacionalmente conhecida “Lei Maria da Penha em Cordel” de Tião Simpatia.

Por fim, destaca-se em Teresina, no Piauí, o Projeto Cordel Legal do Sertão, realizado junto aos alunos da graduação em Direito em 2020. Mesmo diante da pandemia de Covid-19, o projeto que começou timidamente em 2018 em sala de aula, ganhou espaço como projeto de extensão on line e resultou na cartilha que glosa 20 cordéis sobre os mais variados temas do Direito, escritos pelos estudantes. A cartilha encontra-se disponível no Kindle e é gratuita para assinantes do site.

Espia!

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