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Artigo Edição especial

CRÔNICAS NA ESCURIDÃO

Episódio 02

14/05/2021 às 10h11
Por: Nayara Negreiros
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Foto: Layanne Oliveira/Jornal do Advogado
Foto: Layanne Oliveira/Jornal do Advogado

De um pulo ao espreitar o relógio, levanto-me para mais um dia. A cabeça latejava ao som das buzinas e apitos no sinal. Dia quente para estas épocas no Mississipi River. Era fevereiro e Nova Orleans se vestia para o Mardi Gras.

Mas o sonho pulsava na mente como um filme. Quem era aquela mulher? – pensei, passando o batom cor de boca da moda. Eu tinha mesmo que ir trabalhar? – questiono a mulher que via no reflexo do espelho.

Entre cafés e sorrisos, converso com Anna, minha confidente diária. Trago cada cena lúcida do qual me lembro da noite passada. Então você já tem sua fantasia para o baile de hoje! – exclamou – Vá de Madame Lalaruie, aquela escravocrata famosa, afinal você é branca e não dá para ir vestida de escrava! – finalizou à gargalhadas.

Sorri por fora, mas por dentro o sonho me consumia cada vez mais. Flashes a todo momento tomavam-me a visão. Já não me via em mim. Quem eu era? Quem era ela?

As horas imperdoáveis denunciavam meu atraso. Eis que era chegada a hora do baile carnavalesco. Não escolhi muito bem e fui com aquele tubinho preto e uma máscara de gatinho. Prazer, mulher gato ou pantera negra, como quiser! Não estava no clima.

Logo ia encontrando os amigos e mergulhando nos drinques deliciosos que aquele barman preparava com malícia. O som alto tornava os gritos comuns para a comunicação. A meia luz me trazia conforto, mas tudo começava a ficar muito escuro na minha mente.

E de repente, num tropeço na escada: Fiat lux!

Os olhos custavam a querer abrir novamente. Eram 4 ou 6, não lembro. Homens fortes e malcheirosos, conversavam alto e brutamente. Aguardavam algo ou alguém. E eis que ele chega, o sinhôzinho.

Bigode aparado, cabelo no gel. A botas brilhavam tanto que dava para fitar os olhos do negro que a engraxara. E havia negritude em tudo: do terno passado à ferro, ao banho tomado de rosas. Mas branca era sua pele. Que incongruência! Era o branco mais negro que eu conhecia!

Eu não conseguia me mexer. Os braços e pernas envoltos em grossas cordas me impediam. Aquelas mãos brancas passeavam por meu corpo suavemente, mas eu sabia que não haveria temperança vinda daquele homem.

De repente, um grito do lado de fora me enchia de esperança: Sinhô Ferreira? – chamava o padre Mathew, um americano radicado nestas bandas mineiras no Brasil, em nome da Santa Igreja Católica. Era um padre jovem que acabara de chegar na região de Mirabela para catequizar os negros.

O sinhôzinho saiu frustrado para atender aos anseios do reverendo. Enquanto isso, a ordem tinha sido dada e eu passaria a noite presa, porém livre do terror.

Os capatazes foram embora, vez que eu mal podia me mexer ali, não representando risco de fuga. E na hora mais escura, sinto mãos me tocando no breu da cabana. Mas eram mãos apressadas e não buscavam o eu corpo, mas sim as cordas.

Não grite! Eu vou soltá-la e você poderá fugir. Não pegue nada. Siga pelo rio ao sudoeste e só pare quando encontrar cruzes brancas nas árvores. – Sussurrou o padre, na agonia de me ver livre e no medo de ser pego.

Eu vi a lua brilhando em seus olhos, encarei-o docemente, calando-me os lábios, apenas sorrindo sem fustigá-lo pelo ato de resistência e coragem.

Corria descalço, ofegando o peito, guiando-me pelo barulho do rio. As lágrimas não hesitavam e caíam sobre o rosto ensanguentado. Não consigo! – pensei. E meu preto? O que será dele sem a mãe? – chorei.

Laurentino Gomes, certa vez, afirmou: “se você quiser entender o Brasil em uma dimensão mais profunda, precisa estudar a escravidão. Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão”.

João Roberto Ripper, fotógrafo documental brasileiro, denuncia com afeto as inúmeras atrocidades ainda existentes nas mazelas do Brasil, através de sua fotografia humanista junto ao projeto Bem-querer o Brasil e aduz: “O Brasil carece de um mergulho na sua própria população”.

Como aponta Leonardo Sakamoto, dados recentes divulgados  pelos órgãos de fiscalização na última semana, marcaram o resgate de 140 pessoas escravizadas na produção de café, soja e cana e até em trabalho doméstico. Em uma das operações que libertou 71 pessoas, desses, 65 estavam infectados por Covid-19 e continuavam trabalhando.

Apesar do aniversário de 133 anos da assinatura da Lei Áurea no Brasil, não se pode falar em fim da escravidão, verdadeiramente. Os auditores fiscais do trabalho no Brasil representam importante movimento de resistência ao combate dessa barbárie que ainda assola uma parte da população mundial.

Impossível olvidar o dia 28 de janeiro de 2004, dia em que ficou marcado pela Chacina de Unaí, no qual 03 auditores fiscais do trabalho e um motorista, em missão de resgate, foram brutalmente assassinados a mando do Prefeito da cidade à época.

E em pleno século XXI, Madalena Gordiano fora resgatada aos 46 anos de idade de uma situação análoga à escravidão, na qual viveu por 38 anos, trabalhando como doméstica para senhorios brancos.

O caso de Madá, como ficou conhecida, repercutiu internacionalmente nos mais famosos jornais mundiais, expondo as escaras do Brasil, tornando-se caso emblemático de racismo estrutural, base para os fundamentos escravagistas.

E para nossa alegria, no último dia 12 em maio, o atual Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, ratificou a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, o qual ganhará status de Emenda Constitucional, de acordo com o §3º do art. 5º da Constituição Federal de 1988.

Adelante!

 

Eu sei porque o pássaro canta na gaiola

Maya Angelou

 foto de capa: João Roberto Ripper

 

 

 

 

 

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